Minha mente está enfeitiçada

secrets
Source: Bvners

Minha
mente
está
enfeitiçada.

Through those trees, in the places where the mountains speak, you put your spell on me.

Minha
mente
está
enfeitiçada.

Ancestral shadow.
Ancestral soul.

Minha
mente
está
enfeitiçada.

Amateurs (palavrinha 75)

Duelo

Entre o desejo e a verdade
Há uma espada
Lâmina fina, afiada
Perfura a carne, crua navalha

Impalpável fel
Encapsulado na corrente sanguínea
Torpe escolha, quem diria
Optar pelo carrasco ou pela sangria

A mente apunhala o coração
A vontade esmaga a cortesia
Sem a menor inconstância
O ego sapateia na cabeça da ironia

Abrir ou fechar
O cofre da euforia
Dosar ou matar
A própria monotonia

Amor ou segredo
Passado ou desterro
Aplauso ou aterro
Lobo ou cordeiro

Expandir e ser
Pecar e morrer
Trair e obter
Deixar e esquecer

A flor que nasce alvissareira
No jardim ricamente adornado
E a pétala que fenece de tristeza
Entre os ramos do concreto abandonado

Como guilhotinar
A cabeça da Anfisbena
Que cresce em meu espírito
E invocar a magia da verbena?

Ritual
Espiritual
Desigual
Habitante
Do caos

O Grande Farol

Sono profundo que nos embala em um abraço sem retorno. Olhos que tateiam na escuridão. Estrada sem bifurcação. Antes de colocar os dois pés na eternidade do desconhecido, desejo o passeio pelo que já tenho: lembranças, rostos, expressões e sentimentos de quem amo. Desejo ter a chance de receber o mesmo presente de quase dois séculos atrás. Ver o rosto dos meus pais, da minha irmã, do homem que escolhi amar, dos meus adorados felinos e de toda a maravilha que é respirar os detalhes do meu lar natal e do meu lar atual, lugares onde mora o meu coração. Subiria na máquina voadora e me projetaria nas praias de minha infância, nas águas geladas do começo da manhã, ouvindo o canto insistente do passarinho do qual nunca saberei o nome, mas que vive na minha mente há mais de duas décadas. Colocaria conchas nos ouvidos e imaginaria estar ouvindo o barulho do oceano… Andaria pelas dunas da lagoa que tanto amo e sentiria o vento sacudindo os meus cabelos. Ao lado de minha irmã, colocaria os pés nas piscinas de águas naturais e alimentaria as iguanas. Olharia dentro dos olhos dos jacarés, das cobras, dos roedores, dos felinos que tanto amo, de todos os animais com quem já esbarrei. Ouviria o canto da seriema e agradeceria mais uma vez a Deus por ela existir. Apareceria nos anos 1990, na frente da casa das minhas avós. Não como estão hoje, inteiramente modificadas, mas como eram. Observaria a mim, minha irmã e meus primos brincando de qualquer coisa, um tempo de amizades e proximidades. Um tempo sem futuro. Terminaria o último dia de minha vida na minha casa, na minha cidade, no meu lar do nascimento à idade adulta. Degustaria a comida de minha mãe, ouviria as histórias de meu pai, jogaria video-game com a minha irmã, conversaria sobre transcendência com o homem que amo e acaricaria os meus felinos e répteis. Ouviria uma vez mais a minha lista de canções preferidas, leria os trechos grifados dos meus livros favoritos, assistiria cenas escolhidas dos meus filmes do coração, deixaria os meus escritos – especialmente os inéditos – sob os cuidados dos meus amados e dormiria, sabendo que a vela apagaria para sempre logo em seguida. Mas antes, olharia para a minha adorada família mais uma vez, agradecendo pela experiência fantástica e repetindo “amo muito vocês”. Antes de dar o pulo no oceano profundo, passagem que me daria a chance de começar uma nova missão – uma missão de busca, de procura, de escavação -, eu me deteria bem nos olhos de minha mãe e diria “amor eterno”. Sem olhar para trás, para não correr o risco de penalizar os que ficam e me acorrentar ao que não me pertence mais, seguiria o meu novo caminho. Bem, não tão novo assim. O Grande Farol me guiaria daqui para frente.

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Desafio Literário #8 proposto pelo A Estranhamente.

Um esforço violento

Starfish cravou os dedos pontudos no centro da cabeça. As lentes do óculos estavam velhas e desgastadas, o que tornava imperativa sua limpeza contínua, incessante. Havia muitas coisas a fazer: textos a escrever, cópias a repassar, leituras para concluir, cálculos para fechar. Mais tarde, ela seria chamada para agradar ao público da taberna. A música seria a mesma de todas as noites:

“O pescador me chamou
Eu não sabia nadar
Ajoelhada na areia
Pedi aos peixinhos do mar
‘Olhá lá, infelizes, tentem não me matar’

A fogueira está acesa
O lenhador vai chegar
Um pedaço de carne
Ele vai pedir para assar

Bug-ugui-bug-ugui
Pápápá-rêrê
Bug-ugui-bug-ugui
Pápápá-rêrê”

Starfish se perguntava o que levava aquela gente a gostar de canções como aquela. O que formigava na mente daqueles homens sujos, de unhas lambuzadas de terra e lama nos joelhos, para se divertirem com suas canecas de cerveja ruim e barata com um espetáculo tão tolo?! E como as mulheres sem dentes se sentiam ao bater palmas para uma lorota como aquela?!

Ela precisava fazer um esforço violento, violentíssimo, para não subir novamente em outro cargueiro ou baleeiro e dar o fora dali. Seriam meses ou talvez anos de privações e incertezas, mas será que a terra firme, fraca e sem perspectivas, também não era um calvário?

Estafada, Starfish fechou os olhos por um momento e pensou no monstro que habitava em seu peito. Pensou nas vísceras se contorcendo. No apetite por destruição que os habitantes daquele mundo possuíam. No entanto, entre tantos pensamentos ruins, ela voltou para o som do piano e do violino. A combinação mais harmoniosa do mundo. Starfish conseguiu ouvir uma voz quase desaparecendo no horizonte onírico: 

“A semente da flor
O vento me traz
Na palma da minha mão
Ela brilha, tão fugaz

Pequenina flor
Relicário do amor
A saudade não cicatriza
Minha alma por ti eterniza

Gigante afeição
Pulsa e vibra 
A cada nota escondida
Compasso do furacão.”

A copista abriu os olhos. Retomou o serviço. 

“Há tempo para tudo entre o céu e a terra”, pensou, antes de se fechar novamente em seu esforço violento.

. . .

Texto e canções, todos de minha autoria, dedicados a um navio antigo que ainda navega pelos mares bravos, turbulentos e insanos de meu espírito. E para o cabelo que brilha com a luz da fogueira e que sabe o nome de todas as coisas.

Coração Saturnino

Ao largo, no horizonte cinza
Campos devastados e ruínas
Claridade ofuscada
Pela soturnidade da fumaça
Ruminando sensações
Que o peito abomina

Galope descontrolado
De um animal enjaulado
Para quem o inverno é elegia
Correndo sem berros
Viajante do céu, paciente do inferno
Orquídea que seca ao som da agonia

Na descrença absoluta
Coração saturnino
Presa resoluta
Dos próprios feitiços
Quando o olhar
Para ele chega
O pulsar se destila
Como água de caldeira

Chuva no deserto
Enchendo de vida
Os sentimentos petrificados
Idas e vindas
Circulando em farrapos

Mago do encanto
Alquimista dos números
Curandeiro que tomba
A ferida selada
Aquele que tem
Entre todos os seres
O dom premonitório
Capaz de tornar
Um coração saturnino
Manancial de mistérios

Um pulo
No mar agitado
Atravessar o braseiro
Com os pés descalços
Ficar confortável
No lugar
Onde o silêncio
Também é necessário

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Poema escrito para o #6 Desafio Literário proposto pelo A Estranhamente. Aproveito para te convidar a conhecer o trabalho e o espaço da Vitória, um lugar bem caprichado para escritores independentes.

Amateurs (palavrinha 74)

Terra navegante

Uma ilha pequena e leviana
Flutua dentro do meu coração
Morada de folhas verdes
Vistosas como o verão

Pedaço de solo indômito
Vaga silencioso pelo mar
Castelo de espumas salgadas
Território para além do sonhar

Pequena, minúscula ilha
Canta em seu destemor
Para as luzes que vêm lá de cima
Nunca esquecerem o clamor

Tambor
Feito de cicatrizes
Ardor
Na melodia do invisível

Entre os dedos de Poseidon
Desliza a embarcação
Ínfimo floco de terra
Divindade do próprio chão

Minha coleção de discos

Inspirada nas revelações que o vocalista Aaron Stainthorpe (My Dying Bride) fez para a coluna ‘My Record Collection‘, publicada pelo site hmv.com, decidi responder ao questionário com as minhas próprias experiências. Aqui vai:

O primeiro disco/CD que comprei com o meu próprio dinheiro foi:

Widow’s Weeds – Tristania

Uma amigona do colégio me emprestou o CD. Não consegui parar de escutar durante todo o final de semana. Fiz dois trabalhos da disciplina de literatura para colegas de classe e juntei o valor com os víveres que recebi dos meus pais (pagos por uma ou outra ajuda com amenidades domésticas). Um ou dois meses depois, lá estava eu com a minha cópia do Widow’s Weeds. Até hoje, é um trabalho que me encanta muito!

O disco que me fez querer estar em uma banda/tocar um instrumento foi:

This time around – Hanson

Ganhei o disco de presente no meu aniversário de 13 anos. Insisti para fazer aulas de teclado (apaixonadíssima pelo Taylor Hanson ~ e quem não era? rs). Só depois de ouvir ‘Use Your Illusion I’, do Guns n’ Roses, eu mudei de rota e fiz súplicas e mais súplicas para ter aulas de guitarra e violão.

O disco que sempre me faz ter boas sensações/sentimentos é:

Kodama – Alcest

Alcest é Alcest. Para mim, isso diz tudo. Especialmente quando se refere à música.

O disco para o qual recorro quando me sinto deprimida é:

Leaving Eden – Antimatter

Sem a menor sombra de dúvida, é uma das minhas bandas preferidas. ‘Leaving Eden’ é um CD que me faz pensar em uma guerra perdida ou simplesmente alguém deixando de lado tudo e todos para ir embora. Tenho essa pegada ‘ronin’ e esse trabalho alimenta isso.

O disco que eu acho que é o mais subestimado de todos os tempos:

Penso sobre isso algumas vezes. Acho que um cara genial e surpreendente como Chuck Schuldiner não recebeu todos os méritos que AINDA HOJE merece. De “Spiritual Healing” ao maravilhoso “The Sound of Perseverance” há muito mais do que virtuosismo ou técnica. Há muita alma, muita devoção. A mesma sensação que sinto quando escuto os trabalhos do Ozzy com Randy Rhoads nas guitarras. Não tenho resposta para um disco específico agora.

O disco com a minha arte de capa favorita é:

Kodama – Alcest

É um trabalho primoroso do Førtifem inspirado em ilustradores japoneses como Takato Yamamoto. É simplesmente belíssimo!

O disco com meu título favorito é:

A Parábola do Eremita – Cantas ad Mortuos

Ravishing Beauty – Avec Tristesse

O disco que eu não consigo entender por qual razão todo mundo adora:

Absolutamente qualquer álbum do Nightwish. Sem mais. rs

O último disco que comprei foi:

City Burials – Katatonia

Spiritual Instinct – Alcest

Duas bandas que sempre estiveram nos meus fones de ouvidos e playlists. 

O disco que mais espero ouvir em 2020:

Acho que não tenho mais expectativas para este ano. As minhas duas bandas queridas aí de cima já atenderam. Gostei também dos lançamentos do My Dying Bride (The Ghost of Orion) e do Paradise Lost (Obsidian).

O maior disco de todos os tempos é:

Master of Puppets – Metallica

The Sound of Perseverance – Death

Lista de filmes 2019

John Wick 3 Parabellum: 9,5
Cemitério Maldito: 7,0
Matilda: 9,5
Kardec: 8,5
Joan Didion: The Center Will Not Hold: 8,0
Não olhe para trás – 7,5
Bedfellows – 7,0
Elisa Y Marcela – 9,0
Jessabelle – 8,0
A garota no trem – 9,0
Anabelle 3 (De volta para casa) – 8,0
Meu eterno talvez – 7,0
Doris – Redescobrindo o amor – 7,0
Ghost – Do outro lado da vida – 9,5
Homem-Aranha: Longe de casa – 7,0
Milagres do Paraíso – 8,0
Corajosos – 5,0
A Bétula (curta) – 7,0
Filha (curta) – 6,0
Mímica (curta) – 3,0
Monótono (curta) – 8,0
A senhora da van – 7,5
Atraídos pelo destino – 9,0
Segredo de Sangue – 9,0
Velozes e Furiosos – Hobbs & Shaw – 8,5
Histórias Assustadoras Para Contar no Escuro – 8,5
Jogo Perigoso – 9,0
O Homem nas Trevas – 8,5
Venom – 8,0
Mudança de Hábito – 8,5
Kubo e as cordas mágicas – 10,0
Sete minutos depois da meia-noite – 9,5
It – Capítulo 2 – 7,0
Hush: A Morte Ouve – 8,5
Bacurau – 10,0
Divaldo – O mensageiro da paz – 8,0
10.000 A.C – 5,0
Rambo: até o fim – 9,0
Testemunha Fantasma – 7,5
Ad Astra – 5,0
Django – 9,0
Coringa – 10,0
Obsessão Secreta – 5,0
Projeto Gemini – 8,5
A Noiva – 7,0
Con Air: A rota da fuga – 8,5
Influência – 8,0
Eli – 8,5
Cópias de volta à vida – 7,5
Campo do Medo – 7,5
Malévola: A dona do mal – 8,0
O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio – 8,5
Jogo Sinistro – 7,5
Doutor Sono – 9,0
Incarnate – 7,0
Invasão ao serviço secreto – 8,0
Pegar e Largar – 7,5
Aurora – O resgate das almas – 1,0
Ford vs Ferrari – 9,0
Mara – 6,0
February – 6,0
História de um casamento – 9,0
Beleza Oculta – 8,5

Faca cega

Tento cortar o limão. Seguro a fruta com as duas mãos e aperto a faca no centro. Não vai. A casca segue intacta. Tento novamente. Nada. 1000 X 0 para a faca.

Persisto. Aprisiono a bola verde entre os dedos com mais força enquanto pressiono a lâmina afiada. Resultado: quase arranco um naco da ponta do dedão.

Quer dizer que esta faca corta tudo, menos o limão?“, chego a pensar, minha barriga doendo de tanta revolta.

Então, como um passe de mágica, noto que a faca está cega. Completamente, inteiramente, totalmente cega. E que o corte que quase atingiu o meu dedo foi provocado mais pela minha insistência do que pela capacidade da arma branca em fazer estragos. “Olhos vendados”, eu digo para ninguém além de mim mesma.

Decido guardar a faca. Quem sabe, algum dia, torno a afiá-la.