Amateurs (palavrinha 8)

Casinhas na Estrada

E lá se vão os anos

Carregando consigo a imagem concreta do real

Ao longe, do alto da montanha da memória

Vejo a estrada espaçada ganhando contornos inimagináveis 

Veloz como o assobio do menino que passa

Carregando nas mãos a linha da pipa que voa

As casinhas das estradas sem fim

Permanecem umas ao lado das outras

Nas lembranças da minha infância

As viagens que fiz quando criança

Os rastros foram apagados pela poeira e pelo sol

Em seu lugar o desejo incontido

De entrar descalça porta adentro

Nessas casas tão simples, feitas por mãos ásperas

Mãos que a terra conhece muito bem

E que as durezas de respirar em uma vida tão díspar

Não conseguiram arrancar o vigor e o ardor 

Casinhas que moram nas fotografias visuais

De um passado que nunca se foi

Apesar do aceno de adeus

Do cumprimento dos dedos na beira do caminho

O meu caminho

O caminho que trilhei

Com contornos e fugas

Mas sem esquecer da existência

Do que mora além-chão

Em lugares ainda não encontrados

Das buscas desfeitas

Do espírito do desconhecido

Do passado

Das trincheiras levantadas

Sobre tudo aquilo que não foi dissipado. 

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Lista de livros 2018

Como dizem os franceses: “C’est simple comme bonjour!” Sim, ler uma boa quantidade de livros por ano deveria ser algo “tão simples como dizer bom dia!”, mas não tem sido assim a minha trilha adulta (casa, trabalho, obrigações diversas). Em 2018, li apenas 20 livros com qualidade analítica. Para usar outra expressão francesa que aprendi recentemente – e que me arrancou boas risadas: “On n’est pas sorti de l’auberge!”. É hora de tentar sair do albergue. 

Vamos às leituras:

1 – 1822, de Laurentino Gomes – 10,0

2 – Honoráveis Bandidos: Um retrato do Brasil na era Sarney, de Palmério Dória – 8,0

3 – Paris não tem fim, de Enrique Vila-Matas – 9,5

4 – A Jornada do Escritor, de Christopher Vogler – 8,0

5 – Sobre a Leitura, de Marcel Proust – 10,0

6 – Noites Brancas e Outras Histórias, de Dostoiévksi – 10,0

7 – O Jornalista e o Assassino, de Janet Malcolm – 9,0

8 – Ikigai, de Héctor García e Francesc Miralles – 8,5

9 – 1889, de Laurentino Gomes – 10,0

10 – A Luta Pelo Direito, de Rudolf Von Ihering – 10,0

11 – Zen para Distraídos, de Monja Coen e Nilo Cruz – 10,0

12 – Silêncio: O poder da quietude em um mundo barulhento, de Thich Nhat Hanh – 10,0

13 – Jornalismo Cultural, de Daniel Piza – 10,0

14 – A Sabedoria da Transformação: Reflexos e Experiências, de Monja Coen – 10,0

15 – A arte de querer bem, de Ruy Castro – 10,0

16 – O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós – 10,0

17 – O Alienista, de Machado de Assis – 10,0

18 – Cuca Fundida, de Woody Allen – 6,0

19 – O Seminarista, de Rubem Fonseca – 9,0

20 – Parasito, de Andrea Rangel – 8,5


Também fiz uma lista de leituras do ano de 2017. Felizmente, em 2018 eu tive a oportunidade de ler – e reler – livros que me encheram de prazer, conquistando a nota máxima. ❤

Fluxo de consciência # 30

Fiz uma lista dos livros que li e dos filmes que assisti em 2018. Mais uma vez, a quantidade de livros lidos foi bem inferior ao que me propus. Felizmente, consegui atingir minha meta de filmes devorados.

Anos atrás, li a seguinte frase no site de uma coaching (a propósito, perdi completamente o interesse nesse tipo de serviço): “Você pode ter tudo, mas não tudo ao mesmo tempo e nem o tempo todo”.

Essa afirmação não poderia ser mais verdadeira. Nos últimos anos, por conta de trabalhos, mudança, nova vida, sonhos ❤ e outros detalhes menores, tive que abrir mão de atividades que eu curto muito fazer. No começo, essa opção técnica-burocrática-Rússia-de-Gogol ficou bem bagunçada. Eu não conseguia ler, escrever, ouvir música, ir ao cinema, ver séries… Nada. Apenas burocracia e work to do. Isso começou a me deixar pra baixo, melancólica, pilhada… Fiquei tão estilo “folha morta” que observei com dissabor a queda brusca da minha vitamina D. Resultado: doença física e emocional.

Isso aconteceu em meados de 2016. Em 2017, enfrentei outros problemas, mas apelei para a raiva espumante. Em 2018, as coisas começaram a se acertar. A serenidade chegou junto com as escolhas conscientes e a certeza de que estou abrindo mão de certas coisas em prol de outras (a tal pirâmide de prioridades).

Inacreditavelmente, minha vida mudou tanto nesses últimos quatro anos que até eu fico boquiaberta. Não falo aqui apenas da vida social/institucional/familiar, mas algo bem mais profundo. Algo que trago dentro de mim. Os pensamentos foram tomando forma, acompanhando os desejos tímidos e miudinhos que afloravam lá dentro… E quebravam o meu queixo. 

Ainda nem consigo falar sobre isso. Mas o que posso adiantar para mim mesma todos os dias é que, definitivamente, estou me tornando especialista em recomeços. Principalmente no que diz respeito ao meu coração e ao meu internal nightingale ❤ . O que era tão fundamental e importante, simplesmente acena hoje distante, distante… E o que pegou o trem da meia-noite e foi embora, volta agora com o chapéu embaixo do braço e o melhor sorriso de Solf J. Kimblee. 

Sacanagem. rs.

Mas uma sacanagem boa. Uma piada cósmica que tem me feito muito bem. 

Desafio Literário e conto publicado

O meu conto “O que restou do cheiro da noite” foi selecionado no Desafio Literário proposto pelo blog A Estranhamente. Maria Vitória, poeta, ativista literária e fotógrafa, toma conta da casa por lá e sempre motiva os escritores do underground com suas iniciativas.

 Para ler o meu conto, clique aqui.

Aproveite o passeio para conhecer também o trabalho de outros autores.

Fluxo de consciência # 29

Há muito tempo, eu costumava frequentar um blog aqui na “aldeia virtual” que era uma mistura de café com boteco pé-sujo. Dito dessa forma, pode parecer um insulto, mas nem é. O blog era um lugar de fermentações; o dono do estabelecimento tinha ideias excelentes, enfim… Os anos já se arrastaram muito mas, vez ou outra, ainda trago o lugar na memória. Principalmente quando escrevo… Essencialmente quando escrevo. Há anos tento escrever algo que seja compatível com aquela época, uma espécie de saudosismo primaveril, etc. Mas ainda não consegui terminar. 

Em 2013 (ou será 2012?), rabisquei algumas linhas merecidas que retomavam lembranças merecidas. Mas não foi para frente. As obrigações, a vida, os doze trabalhos de Hércules e sei lá mais o que – além, claro, de mim mesma – me lançaram na correnteza em transe. Espero trazer aquele espírito reinante no pé-sujo de volta. Vai valer à pena.

O dono do lugar tinha uma aura própria. Acredito que ainda tenha. Não sei mais nada sobre ele, nem por onde anda, por onde foi e para onde vai. Todos os anos, lembro da data de seu nascimento – sem precisar de nenhum alerta telefônico ou rede social, já que não acompanho, de qualquer maneira e, mesmo se acompanhasse, não teria qualquer sucesso, ele tem o hábito de colocar a data errada. Mando uma mensagem por e-mail, às vezes lida, outras vezes deve cair direto na caixa de spam. Não tem mais nada a ver com o presente. É só o passado.

cafe

Eu gostava de entrar ali, naquele café com cheiro de cigarros, não só porque era feito de inteligências, boas dicas, música, reflexões, etc e etc. Por si só, isso não salva ninguém do esquecimento ou alimenta fidelizações caninas. Hoje, anos depois, eu sei – não, eu tenho certeza – que gostava de estar ali pela atmosfera… Pela aura de portas fechadas, pela insônia, por ser um blog de textos da madrugada… Por ser um lugar onde se podia dormir sem sonhar. Em alguns momentos, isso é bom. Isso é ótimo. E graças a esse anfitrião de cara crispada, olheiras enormes, galego, olhos azuis cinzentos – bem, é tudo o que eu lembro e acho que está suficiente –  eu criei um dos meus melhores personagens literários. Não, não publiquei. Está na gaveta. Não faço ideia de quando isso será possível. Mas quem se importa?

Toda vez que bate uma indecisão no peito diante da folha em branco, aquela angústia que consome e devora as minhas madrugadas, que evapora a minha autoconfiança, eu leio sobre esse personagem e vejo que está ali, direto, sem conversa, como o caco de vidro que reflete o rosto do desconhecido que pula no seu quintal, vejo que está ali o que quero dizer.

No fundo, o boteco de café com cigarros ainda está na minha mente com a sua aura mítica, irreal, como o são todas as coisas enigmáticas que pertencem à noite. Talvez um dia eu o expurgue – não que eu queira, mas é necessário pular de fase para construir outras histórias. Antes disso, um exorcismo primeiro.

Amateurs (palavrinha 7)

Parte I

Apenas um lembrete 

O abrir e o fechar das pálpebras insones

Revelam as sombras camufladas

Na poeira inebriante do desconhecido

Eu retorno para essa cadeia de acontecimentos

Quando o mundo ganha outros sentidos

Neve branca, luz ofuscante

Passado e presente são apenas um lembrete

Vidas que começam, sonhos que terminam

A força que ninguém nunca vê

Uma lembrança fresca que a memória esquenta

O turbilhão de milhares de redemoinhos devoram os meus dias

E eu recordo a você

Todos os pequenos exílios 

De nossas esperanças

Firmes, fiéis

Leais, seguras

Omitidas, vividas.

Como o cheiro de terra molhada

No pântano de cinzas.

 

Fluxo de consciência # 28

Em um tempo nem tão breve e nem tão longo, eu estava diante de uma linda paisagem. Olhava para o fundo azul da água, observando os contornos dos morros cortando o horizonte e os passarinhos tomando banho de areia na margem. Provavelmente, essa área em que eu estava deve ter sido pura água em tempos idos. O mundo vai mudando tão rapidamente que, com um piscar de olhos, já criou outra identidade.

Há gente que sonha acordada com o elixir da juventude, procurando manter os anos congelados pelo máximo de tempo possível (seja por meio de intervenções estéticas ou por cristalização mental mesmo). Tudo bem, cada qual com o seu caminho. Mas, contrapondo o Rio de hoje com o Rio de ontem – uma digressão imaginativa que sempre faço (o estudo e pesquisa da História é algo viciante, incrível, por sinal) -, não tenho a mais remota vontade ou cobiça pela juventude sem fim ou imortalidade, no melhor estilo vampiresco. As coisas são como são. Ser lagarta, sair da crisálida e voar é um ciclo incessante. Não há tempo melhor ou pior. Apenas o tempo. E cada momento traz a sua singularidade, a sua potência da vida.

Penso nos anos 1800 com saudade. Fisicamente, não vivi neles, óbvio. Mas vivo através da leitura, música, belas-artes… Vivo andando pelas ruas que nossos antepassados andaram (como acredito que a humanidade vem de uma ramificação só, estamos todos conectados uns com os outros, então, temos antepassados em todos os lugares) e tentando entrar em suas mentes. Será que alguns de nossos antecessores, vivendo lá onde o tempo se foi, também imaginaram o mundo em que vivemos agora?