Amateurs (palavrinha 7)

Parte I

Apenas um lembrete 

O abrir e o fechar das pálpebras insones

Revelam as sombras camufladas

Na poeira inebriante do desconhecido

Eu retorno para essa cadeia de acontecimentos

Quando o mundo ganha outros sentidos

Neve branca, luz ofuscante

Passado e presente são apenas um lembrete

Vidas que começam, sonhos que terminam

A força que ninguém nunca vê

Uma lembrança fresca que a memória esquenta

O turbilhão de milhares de redemoinhos devoram os meus dias

E eu recordo a você

Todos os pequenos exílios 

De nossas esperanças

Firmes, fiéis

Leais, seguras

Omitidas, vividas.

Como o cheiro de terra molhada

No pântano de cinzas.

 

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Fluxo de consciência # 28

Em um tempo nem tão breve e nem tão longo, eu estava diante de uma linda paisagem. Olhava para o fundo azul da água, observando os contornos dos morros cortando o horizonte e os passarinhos tomando banho de areia na margem. Provavelmente, essa área em que eu estava deve ter sido pura água em tempos idos. O mundo vai mudando tão rapidamente que, com um piscar de olhos, já criou outra identidade.

Há gente que sonha acordada com o elixir da juventude, procurando manter os anos congelados pelo máximo de tempo possível (seja por meio de intervenções estéticas ou por cristalização mental mesmo). Tudo bem, cada qual com o seu caminho. Mas, contrapondo o Rio de hoje com o Rio de ontem – uma digressão imaginativa que sempre faço (o estudo e pesquisa da História é algo viciante, incrível, por sinal) -, não tenho a mais remota vontade ou cobiça pela juventude sem fim ou imortalidade, no melhor estilo vampiresco. As coisas são como são. Ser lagarta, sair da crisálida e voar é um ciclo incessante. Não há tempo melhor ou pior. Apenas o tempo. E cada momento traz a sua singularidade, a sua potência da vida.

Penso nos anos 1800 com saudade. Fisicamente, não vivi neles, óbvio. Mas vivo através da leitura, música, belas-artes… Vivo andando pelas ruas que nossos antepassados andaram (como acredito que a humanidade vem de uma ramificação só, estamos todos conectados uns com os outros, então, temos antepassados em todos os lugares) e tentando entrar em suas mentes. Será que alguns de nossos antecessores, vivendo lá onde o tempo se foi, também imaginaram o mundo em que vivemos agora?

Fluxo de consciência # 27

Voltei a tocar guitarra com alguma regularidade. Ou melhor: voltei a arranhar notas na guitarra. Acho que fica mais honesto falar nestes termos, mais próximo da realidade. Há uns cinco ou seis anos (???), eu deixei a música de lado enquanto ocupante da posição ativa da coisa. Como ouvinte, estou 100% focada desde sempre. Mas acabei negligenciando um pouco – mentira, muito! – o lado produtivo, criador e buscador das notas musicais.

Quando eu era adolescente, tinha o sonho de tocar em uma banda de heavy metal. Imaginava o palco brilhando com luzes multicoloridas, os gritos das multidões, os riffs frenéticos, cabeças voando (não no sentido literal, por favor) e aquela atmosfera que incendeia os corações que sobem em um palco e tocam, cantam, interpretam e fazem as glândulas sudoríparas trabalharem. Óbvio que o tempo tratou de provar para mim mesma que o meu sonho não era assim tão firme e forte, afinal de contas, se tivesse sido, eu teria continuado a persegui-lo incansavelmente (como é o meu estilo).

Lembro de me empolgar com bandas femininas – ou que contassem com alguma mulher em seu line-up -, como The Gathering, Lacuna Coil, Kittie, Crucified Barbara, L7 (esta última, eu conhecia e conheço muito pouco!) e as bandas de gothic metal com vocal no estilo beauty and the beast (quase todas!). De produções nacionais, eu escutava muito Trinnity (banda carioca) e Vetitum (banda de Pelotas/RS). Nessa época, em meados dos anos 2000, eu morava em outra cidade e meu acesso se dava pela internet (fotologs, sites, myspace, coisas do tipo). Na minha terra natal, eu só conhecia o trabalho da banda Evil Woman, cover do Black Sabbath. Lembro dos shows e de como era empolgante ver, ao vivo, mulheres nas guitarras, baixo, bateria e vocal. Eu tinha uns 14 ou 15 anos e achava aquelas apresentações o auge de uma vida. Lembro de me entusiasmar muito com a performance da Lysianne, guitarrista da banda. Gostava de observar o modo como ela segurava a guitarra e se comportava no palco. Queria fazer o mesmo.

Há mais de dez anos atrás, nos encontramos em um grande festival de metal realizado em Fortaleza, com bandas vindas de várias partes do Brasil e do exterior. Conversamos meia dúzia de “small talk” e eu fiquei com a língua nevrálgica, querendo dizer à ela o quanto achava seu trabalho bom, que também me estimulou a pedir uma guitarra como presente de quinze anos (nada de festa!), etc e etc. O som estava absurdamente alto e, infelizmente, eu não disse nada. Espero que agora, de alguma forma – por mim mesma, certamente -, Lysianne saiba disso.

Outro dia, conto essa e outras histórias do mesmo gênero de forma mais completa. Hoje, vou me limitar a falar que comecei a me familiarizar com o instrumento de novo. Não mais com o sonho de tocar em banda, subir em palco e nem nada do tipo. Mas para poder compor e, com isso, fluir mais na escrita lírica e na poesia. O que a literatura não fizer comigo, nada mais faz. Tenho exercitado algumas ideias para intensificar esse processo – que também comento outra hora, nada muito fenomenal – e já começo a notar mais leveza, mais intensidade nas minhas produções (sejam elas quais forem) e uma mente que desce seguindo o fluxo do meu rio mental. 

É simplesmente maravilhoso! Estou aprendendo duas músicas: uma mais direcionada para o violão (por enquanto, vai na guitarra mesmo) e outra da artista norueguesa/norte-americana que me inspirou a voltar para a música de forma ativa. Minha banda preferida dos últimos meses também tem me ajudado muito nesse processo. Dica: é de post-rock. Dou dois minutos para você matar a charada.

Quando as coisas estiverem andando melhor, comento de forma mais ampla. Promessa é dívida. 😉

hole
Oh, yeah!

Fluxo de consciência # 26

Hoje eu fiquei um pouco nostálgica. Estava escutando um audiobook quando ouvi o nome do Dave Mustaine. O nome, por si só, não evoca nada. Mas então, o nome do cara me levou até a música “The Hardest Part of Letting Go…Sealed With a Kiss”, que me levou até “Nothing Else Matters”, até terminar atingida por “The Unforgiven 3” (ambas do Metallica).

Uma mente que faz conexões tão ligeiras – principalmente no que diz respeito à memória – pode ser uma verdadeira “acid bliss”. Lembrei de um personagem que ficou solto em uma das minhas histórias… E lembrei que preciso encerrá-lo. 

Uma mão amiga: Blog “A Estranhamente”

Na última quinta-feira (09/08), meu poema “Tripas” foi publicado no blog “A Estranhamente”, uma iniciativa da “paulista de nascimento, porém não até à morte” Maria Vitória Francisca. 

Compartilhando o trabalho de novos autores e poetas, Maria Vitória – que também é poeta – acredita na socialização da arte praticada por pessoas do dia a dia, que circulam com os seus trabalhos na rede e nos espaços underground.

Para ler o meu poema por lá – e conhecer outras autoras igualmente interessantes -, acesse A Estranhamente.

Fluxo de consciência # 25

Meus dias sabáticos encerram hoje. Foram duas semanas acertando os ponteiros com a saúde, leitura, escrita e também com os pensamentos, propósitos e projetos. Volto para o mundo virtual (não me desliguei muito dele, after all) com uma mentalidade diferente. Volto mais leve, menos “bênção ácida” e com mais fluidez – o que é um presente imenso que eu dei a mim mesma.

Tanta pressão interna e externa (the world does not speak, he shouts), trabalho excessivo sem método e com entrega absoluta (não ter uma linha de ação bem delimitada complicou um pouco), a incapacidade de lidar com pessoas problemáticas e tóxicas (lembrando que posso ser tão problemática e tóxica como qualquer um) e o desejo obsessivo de subir o Everest e fincar uma bandeira por lá (como li recentemente: “todo cadáver no Everest já foi um ser humano dotado de motivação” – bem cruel, eu sei, mas buscadores/exploradores entenderão) me levaram corredeira abaixo. Fiquei com a saúde bastante fragilizada.

Antes de explodir em mil pedaços, decidi tirar duas semanas de recesso. Inicialmente, era para ser apenas uma, mas a necessidade falou mais alto. Francamente, volto como se estivesse deixando um vulcão em erupção e caminhando até o jardim de Eldorado. 

Começo minhas postagens no Instagram com a proposta que carrego: crítica cultural em doses homeopáticas, pílulas diárias. Dois dias dedicados à literatura, dois ao cinema, um dia dedicado aos meus pensamentos e experiências intimistas (passeios, sentimentos, exposições, possessões emocionais, peregrinação existencial, felinos, etc), um dia para a música e o último para a arte (belas-artes, para ser mais direta).

Estou satisfeita por ter definido o tipo de direcionamento que irei dar para o meu fluxo de consciência na rede. É algo como achar o seu lugar, o seu espaço e ouvir a própria voz. Aos poucos, estou conseguindo alcançar isso em outras áreas da minha vida também. ❤

Por algum tempo, pensei em ficar off por completo. Sair de tudo, desconectar, desaparecer. Agregar informações, montar textos e observar ao redor, mesmo que fosse através do controle de feeds, estava ficando muito exaustivo e sem razão de ser. Por isso, eu fiquei out of this world. Nesse meio tempo, eu procurei ouvir o que trago dentro de mim. Só assim percebi que, como exploradora e andarilha existencial, recebo as contribuições que o mundo oferece e também posso contribuir.

Exemplifico: sou auxiliada por pessoas dispostas a viver com um tipo de alimentação diferente, fora dos plásticos e mais próxima do verde, das plantas, do chão, do húmus. Falo de pessoas que pesquisam, estudam, testam… Pessoas que usam seus conhecimentos e compartilham. Se auferem lucro com essas atividades, é apenas consequência. A maior parte dos produtores de conteúdo que acompanho é formada por gente que realmente  é capaz de ajudar outras pessoas a encontrar o caminho alimentar mais adequado (se você se afina com essa proposta, claro).

Meus conhecimentos no campo da alimentação ainda estão engatinhando, portanto, preciso e vou atrás dessa ajuda. Mas, no que diz respeito ao conhecimento jornalístico e analítico no campo cultural e na crítica especializada, já tenho alguns anos de estrada. Tenho muito a aprender (graças a Deus, estou looooooooonge da completude e quero estar sempre. A prática é incessante), mas hoje posso dizer, sem receio algum de parecer algo que não é, que tenho condições de auxiliar outros buscadores/exploradores intelectuais na busca por conhecimento cultural (no sentido amplo de belas-artes, principalmente).

Certa feita, um amigão do peito me perguntou por que eu não tinha publicado nenhum livro por meio de editoras. Perguntou se eu já tinha enviado algum exemplar. “Não, eu nunca enviei nada para ninguém ainda”, respondi. Ele continuou indagando a razão e ainda acrescentou: “Você não quer publicar por conta própria?”. Contei a ele que já fiz isso uma vez, com livros em formatos artesanais e alternativos que não fizeram muito sucesso (as pessoas ainda têm costumes profundamente enraizados). E também revelei a ele que nunca parei de escrever, que estou escrevendo esse tempo todo, sem interrupção, mas que achava que não tinha chegado ainda ao limite, ao fim do caminho. Então, esse amigo que amo me presenteou com um livro, uma música e um filme, todos com motivações e ensinamentos profundamente fortes e cortantes (para mim, ao menos).

Mas eu só vou falar disso em outro fluxo de consciência. =D É algo que eu gostaria de colocar para fora no momento certo. O fato é que essas duas semanas como outsider, as pessoas com quem conversei, os filmes que assisti, os lugares por onde andei, as meditações que fiz, os livros que li, as comidas que ingeri, tudo foi essencial para que eu chegasse aqui hoje, com o coração aberto em alegria e contentamento, para gritar para mim mesma:

Eu estou me tornando livre. Cada dia mais livre. E a resposta está no caminho e na busca. Na busca e no caminho. E na mente sem obstáculos.

Fluxo de consciência # 24

Sonhei que estava em uma vila oriental pequena, cercada por minúsculos estabelecimentos, muitas árvores, pessoas andando de bicicleta, nenhum carro, floriculturas e padarias pipocando em cada esquina. Tive esse sonho na madrugada de uma noite insone, quase asfixiada por uma crise de enxaqueca e dores estomacais. Os picos de estresse cobram seu preço, eu sei bem. 

Hoje, depois das primeiras horas do dia, um amigo me enviou a seguinte imagem:

china
“Sonho dentro de um sonho ou realidade dentro de um sonho?”

Na mensagem, ele dizia:

“Sonhei conversando com você em um lugar como esse, acredita?”

 ~ Silêncio ~

Quando você atravessa uma sucessão de dores intensas – e consegue sair delas -, sente-se como se estivesse se libertando de uma “pequena morte”. Quando as pontadas lancinantes passam, você se sente vivo, vigorosamente vivo. A sensação é linda, pulsante, intensa. Eu já tinha experimentado tal sensação outras vezes, mas sempre deixava passar, afinal, são tantas ocupações, planos, objetivos, metas… Tanto mundo para pouca vida!

Dessa vez, no entanto, a sensação de voltar da minha partícula de EQM ficou. As coisas pequenas, o monte de areia que se acumula no vidro, é só areia. O que realmente importa está aqui, diante de meu nariz. E eu sei exatamente o que é.

Portanto, resolvi tirar uma semana inteira de recesso. Recesso de absolutamente tudo o que é areia, quero dizer. Quando retornar, conto como foi a minha experiência.