Amateurs (palavrinha 28)

Segurando o coração com o segredo da carne

Dissecado, este coração sinaliza
Com as mãos agitadas, chama o seu guia
Segundos fora do tempo
Caixa encantada, as entranhas para fora

O quiromante sibila no ar
As letras sagradas do nome mais secreto
Linhas escorregadias de ferro e cal
Construindo o abrigo mágico, ondas de fogo e caos

Eles riem
Eles riem porque não sabem o que eu sei
Eles riem porque não sentem o que eu sinto
Eles riem porque não veem o que eu vejo
Há algo se movendo lentamente no subsolo

Espinhos cravados como estacas
Dissecados corações
Terra, fogo, água, ar e éter
E o manuscrito das histórias sagradas
Aniquilado, dizimado
Há apenas a lembrança
Dançando na boca do último homem
Você confiaria nela?

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Fluxo de consciência # 41

Eu e minha irmã escrevemos um conto hoje. Com o transcorrer dos anos, descobrimos várias afinidades. Entre elas, o gosto pela literatura e fabulário asiático – no meu caso, em especial o japonês e o chinês (minha irmã também é vidrada nas produções sul-coreanas).

Amanhã ou domingo, não sei ao certo, pode ser até terça ou quarta (rs), acertaremos os detalhes finais. Gostei muito de conversar com a Rafa e elaborar essa ideia, não apenas pelo prazer do papo, mas também pela capacidade de investigações que nos suscitou. 

Li ontem uma entrevista com C.J Tudor, autora de ‘O homem de giz’ (que ainda não li), em que ela menciona a década em que passou recebendo recusas das editoras, as comparações com o mestre do terror contemporâneo – nem vou citar o nome, desnecessário – e coisas do gênero. A parte que mais gostei foi quando ela diz que a negativa generalizada fez com que tivesse a certeza absoluta de que era escritora. 

Escrevo há muitos anos. Tem gente que me aborda com boas intenções, outros com a pistola na mão e há aqueles que exalam a maldade de Calígula, perguntando porque não tenho livros físicos em profusão apesar de todo esse tempo e blábláblá. Eu conheço a resposta. Conheço bem. Mas não tenho interesse em abrir as portas do Castelo de Bran assim, de supetão, só porque “eu quero saber por qual razão você não publicou”. Desde criança eu sou assim: para entrar, você precisa ser convidado. E vice-versa.

Antes, certas perguntas me incomodavam. Depois, com as flechas embebidas em veneno de rã dardo venenosa dourada, a nossa conhecida Phyllobates terribilis, eu passei a me machucar. Agora, filha do final dos anos 1980, quase dois anos mais velha do que Johnny Depp quando filmouWhat’s Eating Gilbert Grape(um dos filmes que eu levaria para a ilha deserta do Pacífico que abrigou Emmeline e Richard), me permito sorrir, assim de lado, e balançar a cabeça. E, adivinhem, continuar no mais absoluto silêncio.

Meu pai me perguntou esses dias quando eu comecei a me considerar, de fato, escritora. Ano passado, ele leu todos os meus estudos, artigos, pesquisas e textos acadêmicos e ficou perplexo. Não fazia ideia do que – e como – eu escrevia até então. Tentou ler as  minhas produções ficcionais, mas disse que se sentia em meio à Pedra de Roseta. Tomei como um elogio. rs.

Voltando ao que interessa, ele me fez essa pergunta. Dessa vez, a resposta saiu natural, na ponta da língua: “Em maio do ano passado”. Ele perguntou, de olhos bem abertos, por que somente em maio de 2018, se eu escrevo desde os sete anos de idade.

A resposta também foi rápida e simples: “Porque eu tive certeza absoluta de que é isso o que eu amo fazer. E que um impulso maior me move, para além do mundo externo. É algo meu. De mim para mim. Meu mundo”.

Meu mundo.

Qualquer um de nós, que escreve seja o que for, precisa ter a certeza de que tem algo fantástico nas mãos, coração e mente. Algo que ninguém pode arrancar – só com nossa permissão, é claro. A arte nos proporciona essa descoberta: o nosso mundo. 

Perceber a minha irmã caçula descobrindo o seu próprio mundo e mergulhando nas águas abissais (a-há!!) dessa descoberta me provoca uma felicidade que nem sei medir. Essa vida anda tão plástica, tão artificial, tão montada, que ter o nosso universo pessoal – o nosso ”infinito particular”, que música linda! – é um recurso raro, berilo vermelho, do qual não deveríamos abrir mão.

Ver a última linha do nosso conto de inspiração nipônica finalizada me devolveu a alegria que a dor na cervical tenta arrancar. Ele será publicado on-line, mas essa nem é a questão. O barato todo foi ver como eu e a Rafa ainda sabemos jogar RPG – agora de outro modo e com outros objetivos.

Minha irmã já escreveuA Samurai e o Rouxinol eA despedida da mulher serpente“. Tenho certeza que vem muito mais por aí. ❤

No momento certo, vou falar sobre minha relação com a escrita. 

Fluxo de consciência # 40

De volta à rotina! Na verdade, não sei exatamente quando ela nos deixa de vez. Talvez a sete palmos do chão – ou nem isso. Comecei a produzir de novo, com o mesmo ritmo desde que escolhi o jornalismo como profissão. Ou seja: ainda no curso de Direito. rs.

Algumas resenhas prontas. Ensaios finalizados. Textos que preciso terminar de revisar. Meu ambiente de trabalho ganhou reforço em termos de maquinário e mobiliário, o que me deixa sem qualquer motivo externo para reclamar (shit! – rs.).

Tenho lido com certa regularidade (melhor do que em 2015/2016 e pior do que em todos os anos anteriores) e sigo com a tendência analítica, o que me causa alegrias e dissabores – tudo tem dois lados.

Não há mais espaço para a quantidade de chocolates que procuro (adeus cafeína e serotonina fáceis!) e estou exatamente como na música Rising of the tide (destaque para a segunda estrofe). Um amigo envia de forma constante mensagens sobre musculação e os perigos do leite de vaca (o atual vilão de tudo, ao lado do açúcar). Ouço meu amigo, para esses assuntos, ele é a voz da experiência (junto com mamãe, que entende MUITO sobre micro e macro nutrientes… O_O”). Se rolar um curso ou pós-graduação em segurança alimentar, já sei para quem indicar.

Gosto de discutir as possibilidades de Dark com meu ❤ e minha amiga Maria Valéria. É incrível! Há sempre novas teorias. A última que lancei – vou deixar registrada aqui antes que algum aventureiro apareça: Adam não é Jonas, e sim Bartosz. Só um palpite.

Escrevi um poema – que foi criado para ser uma música – para o meu amigão. Sinto falta dele todos os dias! Fico me perguntando o que ele acharia desse mundo baldio de hoje… Com certeza, gostaria tanto do Spotify quanto eu. E do Netflix também. Talvez curtisse os tablets para desenho, as mesas especiais, Castlevania (ele iria se amarrar!) e outras coisas boas por aí. Mas não teve tempo pra isso! Enfim… Não dá para falar desse assunto. Não mais. Não diretamente. 

O que mais tem alimentado a minha partícula de vida especial – além da leitura – é estar sendo capaz de executar o meu projeto, peça por peça, sozinha, todos os dias. 

Minha vontade de “cronicar” está baixa. É sazonal – assim espero.

Amateurs (palavrinha 27)

Como Mágica

Eu não vi quando os anos voaram
Eles foram embora
Apenas isso
Eles não acenaram

Eu pisquei os olhos
E o mar estava agitado
Desisti de esperar
Eu saltei do barco

Lembra quando costumávamos caminhar pela proa do navio?
As histórias borbulhavam em minha boca
E das suas mãos desenhos transcendentais vinham ao mundo
Vida ao imaginário
Como mágica

Meu melhor amigo
De toda uma vida
Com o pulo ao mar
Mar agitado
Mar sem piedade
Você raptou a possibilidade
De que alguém neste mundo
Possa ocupar o seu lugar

Como mágica
Eu o trago de volta
Em histórias e canções
As pessoas não entendem
Amizade como a nossa
Não existe mais na terra dos vivos

E = hf #11

Um epitáfio sensacional:

jazz

Li a citação abaixo do “Dostô” em uma das minhas anotações pueris ~ e que estão trancafiadas em uma cápsula do tempo, seguras de minha própria ação. Posso querer dar uma de Kafka e destruir. Minha mãe é o meu Max Brod. Já pensou se me der na veneta e quiser ser Gogol? E o pior de tudo: conseguir! Todos os meus escritos ardendo na lareira… Ou, sendo mais realista, na fogueira no fundo quintal. Gogol, te amo! =D E amo a biografia que o Nabokov escreveu sobre você. Mais amalucada e interessante impossível!

“It seems, in fact, as though the second half of a man’s life is made up of nothing, but the habits he has accumulated during the first half”.

Fiódor Dostoiévski