Amateurs (palavrinha 15)

Um milênio como ontem

Na beira do rio havia alguns peixes
Eles nadavam de um lado para o outro
Alguns deles pareciam perdidos
Outros tinham olhos de águia
E sabiam exatamente como nadar

Você estava sentado na areia
Suas mãos brincavam com a terra
Amassando um punhado de vida orgânica
Seu rosto estava magro e pálido

Nossos pés estavam dentro do rio
A correnteza corria apressada
Aquele momento ainda está congelado na minha linha do tempo
Porque cem ou mil anos são para este sentimento que pulsa
Como o entardecer de ontem

Anúncios

Amateurs (palavrinha 14)

Para tudo o que não há mais nada a dizer

Você tem algo a dizer?
Algo que torça os seus ombros?
Algo que faça calar a sua boca?
Algo que afunde os seus pés como uma âncora?

As paredes de musgo continuam florescendo
E o relógio toca ao meio-dia
Flores da primavera crescem na janela
Fazendo inveja aos bem-te-vis e cegonhas

Pedregulhos no meio da estrada de terra
Lagartas de fogo espreguiçando seus corpos miúdos
No alto da torre
Carroças que vêm e voltam de algum lugar
E uma placa de boas vindas pendurada na porta

Se você tem algo a dizer
Escreva na terra para que o vento sopre
Desenhe nas águas para que as palavras afundem
Sopre no ar para que ele leve embora

Instante
Eterno
Silêncio
Busca

Começo e fim do que vive em você
Nas entranhas de uma história de tendas sagradas
E dos sussurros que surgem junto com o agitar das águas do lago
Para quem tudo pode ser alcançado

Amateurs (palavrinha 13)

A Flor Sagrada

Em um túnel secreto

De cores sedentas e brilhantes

Uma flor nasce

Etérea

Flutuante

O caule banhado pelas cores da noite

E as pétalas vestem o manto da rainha que vaga

Pela neblina

Pelas horas em que ninguém ousa falar

Pelas paredes cheias de vida e não vida

O andarilho que desconhece

As histórias dessa estrada

Deve evitar entrar no túnel

Deve desviar os olhos da caverna

Lar dos morcegos

Lar dos lobos

Lar das corujas

Lar dos corvos

Forasteiro, leia a placa

E não se atreva

A cruzar o portão de entrada

A flor sagrada não te pertence

Ela é dona do próprio destino

Esqueça que perambulou por aqui

Siga outro caminho

Amateurs (palavrinha 12)

Meu confidente

Você desliza pelas calçadas
Com a sua bicicleta verde
Incendiária
Brilhando como uma esmeralda em chamas
Na cestinha, algumas flores
Presentes de alguém
Você não conhece os nomes
Mas abre o sorriso transparente
Para dizer que vai aprender mais
Sobre plantas e animais

Não há cigarro em seus dedos
E nem garrafa de cerveja ou vinho
Pendurada em suas mãos
Uma camisa de flanela amarrada na cintura
A calça jeans suja
O tênis da mesma marca antiga
A camiseta com slogan de banda
E um pão com mortadela na barriga

Estamos disputando corrida na esquina
Você fala algo sobre as mesquinharias de uma tia
As árvores balançam ao sabor do vento
Pode ser que a chuva transborde
E quem realmente liga?

Uma fita invisível nos une
Estamos em dimensões diferentes
Nos despedimos quando a lua se põe
Acenando como dois adolescentes
Te vejo no próximo sonho
E trarei meu espírito sorridente
Para que eu jamais possa esquecer
Como é bom estar perto de você
Parte de mim, meu confidente

Fluxo de consciência # 35

Só recentemente descobri que o esmalte deve passar apenas de 5 a 7 dias nas unhas. Depois, independente de estar inteiro ou descascado, precisa ser retirado. Há circunstâncias que deveriam ser assim – passar apenas o tempo necessário em nossas vidas. Entre elas, os nossos pensamentos obsessivos

Não é segredo para ninguém – ou não deveria ser, pelo menos – que as compulsões interferem em nossa vida cotidiana. No meu recente quadro existencial, me fiz vítima de um pensamento obsessivo. Não vou mencionar ou detalhar nada aqui, mas posso dizer que veio de uma produção criativa. Quando conversei com a minha irmã de forma profissional, ela me orientou a dar um tempo na atividade que estava realizando e arejar a cabeça com outras ideias.

É isso o que pretendo fazer. Vou precisar de uns dias longe de minhas pesquisas e produções específicas sobre o tal assunto para que o meu relógio mental volte a funcionar sem apegos ou aversões. Eu tento ser cientista de mim mesma – como pontua acertadamente uma de minhas melhores amigas (ah, como amo essa expressão! ❤ ) – e sei – sinto – quando algo já passou dos limites.

Friedrich Nietzsche deixou um recadinho quanto à essa situação (vou deixar a imagem com o lembrete no final desta postagem) e olha… Acho que temos exemplos suficientes para comprovar que ele ainda continua certo, 119 anos após a sua morte.

Vou aproveitar o tempo para subir a colina e dedicar minhas observações e práticas criativas para outro ponto. Ou faço isso ou mergulho (e não tenho essa intenção).

Quem sentir saudades e quiser materializar essa falta, pode me enviar um e-mail (maravanessatorres@gmail.com). Devo parar as rotativas por um tempinho (nada muito severo, eu garanto), e tenho “movimentações públicas” até meados da próxima semana. I am an analog person in a digital world, portanto, me envie e-mails. 🙂

nietzsche
É Nietzsche quem diz, cara. Ouçam o homem!

E = hf #8

NA ALDEIA DOS ANCESTRAIS

Alguém me abraça
Alguém me fita com olhos de lobo
Alguém tira o chapéu
Para que eu o veja melhor

Todos me perguntam
Você sabe quem eu sou

Velhotes e velhotas desconhecidos
Apoderam-se dos nomes
De rapazes e garotas de minha lembrança

Pergunto a um deles
Se ainda está vivo o rico
Gueórguie Kúria

“Sou eu” responde-me
Com voz de outro mundo

Acaricio-lhe a face
E com os olhos peço que me diga
Se eu estou vivo ainda

Vasko Popa, traduzido por Aleksandar Jovanovic.

Fluxo de consciência # 34

Escutei “The Pressure” ontem e hoje. Acho que estou ficando igual fruta madura: o bater de asas de um pássaro é suficiente para que um pedaço da fruta despenque. Fiquei emocionada com a música. O ritmo de esperança e aquele toque de “don’t worry. I am here” me arrancaram duas lágrimas marotas.

Guardo muitas saudades de dois amigos que não estão mais aqui – because so they chose. Às vezes fico pensando que seria realmente legal poder voltar no tempo. Mas como fazê-lo sem alterar o presente, visto que apenas uma fagulha lá atrás promove o caos das coisas certas de hoje?

I don’t know.

Saudades da menina violeta e do garoto da floresta.