Amateurs (palavrinha 29)

O sete esconde o oito

Mosaico, raiz
Pena que flutua no ar
Partícula de areia e poeira
Lembranças de outros tempos
Que vêm das águas do mar

Vêm do céu, vêm do ar
Vêm do fogo, vêm do éter
A quintessência que abre portais
Guardiã das histórias e dos cristais

Séculos que se abrem
E que se fecham
A água que transborda de outros leitos
E tudo o que eu sou, como sou e o que tenho

Impermanência
Caleidoscópio de emblemas
No peito ressoando brilhante
Como gota de água e diamante

O ser e o todo
A busca e a isca
Estrada e chegada
Memória e vida

Anúncios

Amateurs (palavrinha 27)

Como Mágica

Eu não vi quando os anos voaram
Eles foram embora
Apenas isso
Eles não acenaram

Eu pisquei os olhos
E o mar estava agitado
Desisti de esperar
Eu saltei do barco

Lembra quando costumávamos caminhar pela proa do navio?
As histórias borbulhavam em minha boca
E das suas mãos desenhos transcendentais vinham ao mundo
Vida ao imaginário
Como mágica

Meu melhor amigo
De toda uma vida
Com o pulo ao mar
Mar agitado
Mar sem piedade
Você raptou a possibilidade
De que alguém neste mundo
Possa ocupar o seu lugar

Como mágica
Eu o trago de volta
Em histórias e canções
As pessoas não entendem
Amizade como a nossa
Não existe mais na terra dos vivos

Amateurs (palavrinha 25)

Tubarão submerso

Dentro do meu coração
Vive um tubarão submerso
Em meio as águas geladas
Ele cria raízes e faz a sua morada

Não há razão para confiar
Nas águas quentes de outros mares
Não há nada especial
Nas ilhas que se julgam especiais

O tubarão continua aqui
Glacial, siberiano
Submerso
Dono de si

 

P.S: Escrevi este poema em inglês. No entanto, fiquei tentada a transpor para o português. Gosto das imagens que ele evoca. 🙂

Amateurs (palavrinha 23)

Os últimos ossos

Calem os sinos
Abafem as conversas miúdas
Interrompam a missa
Desliguem o rádio

Soprem as chamas da fogueira contra o vento
Limpem os restos das cinzas com a língua
Sem pistas, sem lembranças
Briguem com o olhar mudo

Façam o que tiverem que fazer
Sigam as ordens, é questão de progresso
Andem vendados, pendurem nas portas das casas
A bandeira do retrocesso

Onde eu pensei que não houvesse fim
Já existe a ponte que leva ao abismo
Todos os ciclos terminam
E é engano pensar
Que as sementes plantadas
Com amor e rigor
Bem, que todas germinam

Lancem pela janela os últimos ossos
Roídos até desaparecer o couro cabeludo
Nesta era onde serpentes rastejam
Com olhos esbugalhados
Fígados abertos na mesa da autópsia
Filósofos de meia página
Há apenas farinha moída
Feita de carne humana
Misturada a pesticidas

E ponto final

Amateurs (palavrinha 22)

O guia

Ouça. Ouça o seu peito arfando
Leve
Um pedaço de cristal que despenca do multiverso
Todos os cortes e arranhões na carne
O fio de sangue que escorre
Vermelho, tão vermelho
Ilumina os passos de desconhecidos que percorrem
Esse labirinto escuro
Tão escuro
O sacrifício dos órgãos expostos
As veias azuis que saltam da pele transparente
Metade de um homem
Apenas a metade
E nessa minúscula parte
Mora um homem inteiro

Amateurs (palavrinha 21)

Onde passar a noite?

Onde passar a noite? 
Em que lugar depositar
O ouro e a prata
Apanhados com voracidade
Em meio a uma ou outra garfada

Pratos cheios de nada
Ídolos desmascarados
Tempestade de areia que arrasta
Resíduos mumificados

O oráculo da dúvida
É o que garante a certeza
A cavalgada que nunca termina
Entre canções de exílio
Segurando a bandeira que ainda fascina

Trêmula no ar belicoso
Nas moradias que guardavam ansiosas 
Pela rega das plantas
Agora desfeitas em terra infértil e choro

Do que cuidamos e destruímos
Nos rastros que desprezamos
Nas chances que renegamos
E no sagrado interior que carregamos

A partícula de Deus
Encontrada na pedra comum
Lançada entre tantas
Barulho no rio
Esperança contínua
Despertar
Do turbilhão
Recortes dessas andanças

Aqui está
Onde sempre esteve
Aqui está
Onde sempre estará