Amateurs (palavrinha 75)

Duelo

Entre o desejo e a verdade
Há uma espada
Lâmina fina, afiada
Perfura a carne, crua navalha

Impalpável fel
Encapsulado na corrente sanguínea
Torpe escolha, quem diria
Optar pelo carrasco ou pela sangria

A mente apunhala o coração
A vontade esmaga a cortesia
Sem a menor inconstância
O ego sapateia na cabeça da ironia

Abrir ou fechar
O cofre da euforia
Dosar ou matar
A própria monotonia

Amor ou segredo
Passado ou desterro
Aplauso ou aterro
Lobo ou cordeiro

Expandir e ser
Pecar e morrer
Trair e obter
Deixar e esquecer

A flor que nasce alvissareira
No jardim ricamente adornado
E a pétala que fenece de tristeza
Entre os ramos do concreto abandonado

Como guilhotinar
A cabeça da Anfisbena
Que cresce em meu espírito
E invocar a magia da verbena?

Ritual
Espiritual
Desigual
Habitante
Do caos

Coração Saturnino

Ao largo, no horizonte cinza
Campos devastados e ruínas
Claridade ofuscada
Pela soturnidade da fumaça
Ruminando sensações
Que o peito abomina

Galope descontrolado
De um animal enjaulado
Para quem o inverno é elegia
Correndo sem berros
Viajante do céu, paciente do inferno
Orquídea que seca ao som da agonia

Na descrença absoluta
Coração saturnino
Presa resoluta
Dos próprios feitiços
Quando o olhar
Para ele chega
O pulsar se destila
Como água de caldeira

Chuva no deserto
Enchendo de vida
Os sentimentos petrificados
Idas e vindas
Circulando em farrapos

Mago do encanto
Alquimista dos números
Curandeiro que tomba
A ferida selada
Aquele que tem
Entre todos os seres
O dom premonitório
Capaz de tornar
Um coração saturnino
Manancial de mistérios

Um pulo
No mar agitado
Atravessar o braseiro
Com os pés descalços
Ficar confortável
No lugar
Onde o silêncio
Também é necessário

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Poema escrito para o #6 Desafio Literário proposto pelo A Estranhamente. Aproveito para te convidar a conhecer o trabalho e o espaço da Vitória, um lugar bem caprichado para escritores independentes.

Amateurs (palavrinha 74)

Terra navegante

Uma ilha pequena e leviana
Flutua dentro do meu coração
Morada de folhas verdes
Vistosas como o verão

Pedaço de solo indômito
Vaga silencioso pelo mar
Castelo de espumas salgadas
Território para além do sonhar

Pequena, minúscula ilha
Canta em seu destemor
Para as luzes que vêm lá de cima
Nunca esquecerem o clamor

Tambor
Feito de cicatrizes
Ardor
Na melodia do invisível

Entre os dedos de Poseidon
Desliza a embarcação
Ínfimo floco de terra
Divindade do próprio chão

Amateurs (palavrinha 72)

Inapropriada Interrupção

Deixe-me em paz
Com o meu ofício 
Esculpido nas horas sem hinos
Noturno labor
Letras miúdas
Vagalumezinho esquecido

Não quero mais
Revolver essa terra úmida
Cravando os meus dedos cheios de tinta
Para procurar cartas tuas

Papel morto
Amarelado
Que traz a sombra
Do teu sorriso torto

Sensação fugaz
Tateada como uma sina
Queimando a minha pele
E lançando estricnina
No meu pobre coração
Miudinho
Pequenino
E que em um dia distante de hoje
Já foi puro e
Docinho

O Noivo

Por agora, eu aqueço os meus braços
Na correnteza profunda e desnuda
Que cavalga veloz entre as rochas
Perdendo o peito longo na margem
Onde as criaturas não aparecem mais
E as partículas de areia se agrupam
Eufóricas, seduzidas pela luz de um sol
Tirano majestoso
Sublime encanto
Que se esvai no testamento das horas

Incríveis horas

Algozes da existência de um amor antigo
Nas paredes de musgo
Geleira ao toque
Quentes e afáveis nas imagens sépias
Inconsistentes
Quando chamo o teu nome
Mas tu não me ouves
Já nos assaltaram os anos
Um barulho 
Diga que lembra
Uma vez só
Diga que lembra
Do que o mundo costumava ser feito
E do que se movia
Do que não costumávamos perder

Há apenas um retrato
Fotografia puída
Dentro do teu diário 
Na calada da noite incerta
Murmúrios nos pés
Rastros de insetos
Ao redor de uma vela
Te vejo ler
E o brilho que escorre
Das pálpebras que tanto amei
Flutua na retina
Como um sopro

Mãos unidas
Ainda aqui
Carvão em brasa
Ainda aqui
Véu do oculto
Amor profundo
Ainda aqui

Anoitecer
Para sempre
Anoitecer

E eu te chamo
Adorada vida
Verso do meu sangue
Letra escarlate escrita

Confissão de amanhã
Devaneio augusto
Aqui, na ferida irreal
Canção que ecoa
Sorte que voa
Imortal

E eu te chamo
Adorava vida
Verso do meu sangue
Letra escarlate escrita

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Minha participação no Desafio Literário proposto pelo blog A Estranhamente.

Amateurs (palavrinha 71)

Onde estão os murmúrios

Eu tenho segredos
Embrulhados em seda
Outros estão queimando na lareira
E ainda há aqueles que descansam debaixo do travesseiro

Letras esculpidas em madeira
Linha e agulha
Mãos que tecem com destreza
É na distância que conquisto o alívio das incertezas

Armo uma emboscada
E a inspiração enfim chega
A luz do abajur sempre acesa
Cuidando da fumaça como dos sonhos de alteza

Eliminate some fondness

Hoje me despedi de uma pessoa
Ela ainda não sabe disso
Mas é a verdade; verdade transferida de papel manteiga para papel A4
É hora de colocar os lençóis de volta na cama
Guardar o copo de água morna na geladeira
Gosto de água gelada
Com gotas de limão
Mas já basta de tanta azia
Desejo sorte, tchau e ‘Deus te abençoe’
Não sou Ophelia e nem Lady Macbeth

Eu sou a múmia de Anúbis, intocada dentro de pirâmides amaldiçoadas.

Sou fogo-fátuo, vaga-lume da meia-noite, folha outonal que reconhece que para tudo há uma hora.

Hoje me despedi de uma pessoa. 

E tranquei a porta atrás de mim.

Coração fechado é como bomba atômica. Disso eu me desfaço.

Saio de cena. Fecho as cortinas. Sem aceno, sem cartas, sem desabafos.

Apenas necas de pitibiribas.

O espírito entra de férias.

Amateurs (palavrinha 69)

Noite Velha

Nada mais, nada menos
O portão fazendo estrondo
Intranquilo
Assustando até mesmo os espinhos
Cravados na pele do crocodilo

Iminente poeira do tempo
Escondida entre poças
Onde residem debaixo de concreto
A pelagem dos chacais

Noite desgastada
Sem ferrolhos
Porta escancarada
Dentes pendurados no pescoço
Colar dos carniceiros
Que sorvem o café nas manhãs
Feito da dor alheia
A minha dor