Dois amigos

Tomo emprestado estas horas porque elas são feitas das veias e ligamentos das palavras que brotam do coração cheio de artérias, válvulas e outras camadas pegajosas que não me deixam pausar e eu pergunto como quem visita o tédio “quem disse que eu quero pausar?”, sentindo que vou continuar escrevendo até o dia chegar ao infinito, pois eu vi o que era lá atrás quando sonhei que éramos amigos muito próximos, coisa de carne e sangue, pele e ossos, mas brigamos pelas canetas, pelas palmas e pelas bengalas cobertas de ouro, então um dia um de nós morreu, virou resíduo da terra úmida, não consegui saber quem foi, e tampouco importa, pois o outro correu os dedos de arrependimento, bradando aos quatro ventos “por que gastamos nossas preciosas horas derramando elogios ocos aos outros quando poderíamos aproveitar a nossa companhia e levá-la até o paraíso?”, e as lágrimas voltavam e voltavam e picavam e picavam… “Pois muito bem”, disseram os responsáveis pela reencarnação, “vocês irão voltar e terão nova oportunidade de se emendar, serão amigos novamente e mais uma vez irão se encontrar”; de fato, isso parece ter nos acontecido, depois do sonho, cogitei o que cogito, e agora quero saber se vamos derramar a nova chance para depois lamentá-la diante do esquife. Para mim já chega, eu não quero mais praguejar, minha amizade você terá e nenhum interesse a mais irá brotar, e assim penso que pode encerrar o que entre o céu e a terra fica escondido atrás de resinas de santos e óleos sobre tela de quadros e desenhos de corvos e outros pássaros e cordas musicais e sopros leves de flautas… Soprados no ar como uma sina.

Fluxo de consciência # 49

Uma música do tempo dos meus antepassados tem me “perseguido” há dois dias. Como um disco arranhado, ela fica tocando na minha cabeça na hora do banho (passando por cima, inclusive, das músicas que coloco para rodar no Spotify), no turno de trabalho, na leitura, deitada na cama… Chegando ao cúmulo de me apoquentar quando vou jogar o lixo na lixeira coletiva do meu andar.

Terminei de reler “Os Sofrimentos do Jovem Werther” depois de mais de dez anos da minha primeira leitura. Werther, querido Werther. Passional, intempestivo, profundo, melancólico por natureza e arrebatado pelos sentimentos igual a um galho seco queimando no ardor das labaredas. Dessa vez, li alguns fragmentos dos poemas de Ossian (citados no livro de Goethe), o que fez toda a diferença. Werther e seu casaco azul, colete amarelo e botas, herói do “Sturm und Drang” e influenciador – segundo relatos documentais da época – de uma onda de suicídios entre jovens. Contrário ao pragmático e estável Alberto. Apaixonado pela dúbia Carlota, que preferiu manter os dois pássaros na mão sabendo que terminaria com um deles voando e o outro ensimesmado.

Certamente, um assunto para outro tópico. Cada época, sociedade, cultura e contexto histórico tem o seu ‘Werther’. Colocar a guilhotina na cabeça de Goethe sem ouvir a voz dos tempos não é justo e nem razoável. O fato é que a leitura me chicoteou com boas lições. Coisas do tipo “Werther, cara, precisamos melhorar”.

Vou elencar os livros que tenho lido – e que pretendo ler – nesse período de quarentena. Pincelarei no meu perfil do Instagram e por aqui, mas deixarei maiores explanações para os assinantes das minhas cartas

Também tenho intenção de compartilhar playlists literárias (livros que estão sempre na minha lista de preferências para longos períodos de reclusão), musicais e cinematográficas (filmes e séries). Para quem recebe as cartinhas, elas irão completas e detalhadas.

No meio dessa crise de saúde pública de vida ou morte, dois colegas sumiram da vida on-line. Um está nas florestas densas da Noruega e outro no chão de concreto de SP. No caso quase improvável de colocarem os olhos nesta postagem (vocês sabem exatamente quem são, né?), sinalizem de alguma forma. No primeiro caso, a resposta para a pergunta “Qual é o nome do castelo do Drácula?” já basta. No segundo, o nome do único poeta brasileiro surrealista que você lê também serve. 

Fluxo de consciência # 47

Ontem e antes de ontem trabalhei como uma máquina. Há muito tempo não me sentia assim, como um protótipo focado do artista que mergulha em sua obra. Sentei na cadeira e fiquei lá não sei quantas horas. Quando levantei, tinha escrito páginas suficientes por quatro ou cinco dias de trabalho intenso, material para deixar arquivado, leituras instigantes, anotações e uma dor fenomenal nas costas, nos ombros e no pescoço.

Hoje, ao contrário, fiquei apenas com o que tinha feito nesses dois dias de sofreguidão. Não foi premeditado. Sentei e me desconectei. Estou testando alguns métodos e assim que conseguir um resultado consistente (fruto de observações, análises, notas e testes) sobre o assunto, eu irei compartilhar, certamente.

Descobri dois novos poetas – um alemão do século XVIII e um francês do século XX – e matei a saudade dos poetas marginais dos anos 1970. Tentei tocar um pouco, puxar um cover, mas logo desisti. A dor no ombro foi maior. Comecei a assistir uma série nova, mas só terminei o primeiro capítulo.

 

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Batendo na porta de Morfeu

 

Verschlimbessern

Escrevo sem tinta, sem cera, sem giz. As marcas que faço são com a pena de minha própria memória. Tudo o que merece ser salvo está lá, na alcova desconfortável do tempo.

Há quase dez anos deixei apontamentos soltos. Eles já fizeram sentido uma vez. Depois, nunca mais regressaram de novo. Até agora.

Do poço da perplexidade eu saltei ainda mais perplexa. Fiz fogo com galhos secos, lascando uma pedra na outra.

Recesso da alma, da faixa de largada, da expectativa nubente, dos abençoados regentes. Recesso das vias de mão única que nos levam às colinas negras. Recesso da curva perigosa que lança ao abismo.

Por nada.

Recesso de ser Riabóvich e viver preso em um engano. “O beijo não era para ti, alucinado, era para outro”, é o que a voz pronuncia.

Recesso. De tudo.

Até do reconhecimento de que piorou o que tentou restaurar.

Verschlimbessern.

Minha newsletter

Como é público e notório, escrever cartas é mais do que uma forma de comunicação para mim. É uma prova de materialização, de rastros, pegadas na areia, importância e tempo. Por isso – e sem mais delongas, porque estou dead of tired -, criei uma newsletter. 🙂

Dependendo da circulação no meu saloon, vou escrever duas vezes por semana. Em um primeiro momento, minha ideia é não procurar um foco específico. Então, posso falar sobre natação e coxinha de jaca. Ou ainda sobre fotofobia e as escalas e acordes adotados por Randy Rhoads. Posso falar sobre o Fenrir e o Foucault (meus gatos) e sobre o meu fascínio por arquitetura gótica e por aí vai.

Para se inscrever, basta clicar aqui e inserir o seu e-mail. O próximo passo é confirmar a assinatura e voilà! Estaremos mais próximos. 🙂

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De portas abertas ❤

Discurso Direto

Há uma casa na vizinhança que resolveu abrigar um cachorro. Não é preciso ser mentalista para inferir que o propósito é afastar a marginalidade, que vez ou outra pula no jardim e furta o que estiver ao alcance.

O cachorro (vamos chamá-lo de Zeca) fica a maior parte do tempo na área externa. É um vira-lata. Alvoroçado e sozinho, está quase sempre latindo. Uma de suas táticas para chamar a atenção consiste em se lançar contra o portão minúsculo e fazer um barulho daqueles.

O diálogo de Zeca começa cedo. Nunca me incomoda. Pelo contrário. Há dias em que eu mesma cogito passar pelas proximidades da residência para saber se ele está bem.

Quando estou próxima à janela, estico a cabeça em direção ao portão para ver Zeca. Se alguém se irrita e xinga o cachorro, eu já me aborreço. Certa vez, um sujeito estava quase no final do perímetro quando decidiu voltar e bater no portão violentamente, chateando Zeca. Ao notar que ele estava tentando pegar o cachorro, quebrei os meus protocolos de conduta (só grito em caso de extrema necessidade) e berrei:

– EI! VOCÊ AÍ PERTO DO PORTÃO! ESTOU TE VENDO! TE VENDO, ENTENDEU? DEIXA O CACHORRO EM PAZ! VOU TE FILMAR.

Evidentemente, ele jogou o lança-chamas de palavras grosseiras em cima de mim, achando que estava me descompondo. Tolinho. Tsc tsc!

No final das contas, após alguns instantes, o agressor deu meia volta e escapuliu. Zeca estava seguro novamente. 🙂

Zeca é objetivo. Fala na lata, sem intermediários. Fica no canto dele, não usa artifícios para conseguir o que quer. Ele late e pronto. Se sente falta, ele late. Discurso direto, em primeira pessoa, sem parafrasear ou camuflar. Não tem receio de não ser compreendido. Ele não tem culpa das interpretações alheias e sabe disso. Faz por instinto, mas também porque esse é o modo de dizer o que pensa.

Acho que Zeca ainda não encontrou a tecnologia ofensiva e nem o bolo de gelatina (feito de uma gosma viscosa e sem gosto, ludibriadora e artificial) – coisas que a humanidade não vive sem. E espero que nunca encontre.

Canto da cigarra saindo da escotilha

Não há luz.

Oh, me engano: há uma fresta desafiando a passividade da janela e a beligerância da cortina. Toca a parede mergulhada no breu.

Na cabeceira, fotos dos meus pais, da minha irmã, do meu muso, dos meus gatos. Ao lado, os nomes dos poetas e donos das penas que alimentam os minutos finais antes do sono – Morfeu, dai-me tempo! – e as horas iniciais da vida barulhenta que não cessa.

A névoa lá fora cobre tudo. Indissipável monumento ao oculto. As luzes dos postes são sombras do passado remoto. Lugares por onde andei nas pirografias da mente.

Nas nuvens espessas, uma cigarra canta. Monótona, saindo da escotilha de um navio imaginário em chamas. Afundado na tempestade, mar aberto.

Gravuras borradas em minha mente prestes a receber um novo dia. A caneta tinteiro de ponta macia dormiu preguiçosamente entre os papéis na mesa.

Estudos sem fim, convido-os de peito aberto. Como as macieiras repletas de frutos por amadurecer. Dividir o tempo com as coisas ideais e as técnicas mecânicas, igual ao ponteiro do relógio antigo que deixo na prateleira.

As cartas endereçadas aos besouros verdes, demônios azuis, lagartas cinzentas, eu as guardo novamente na gaveta com chave. Pulverizadas pelo tempo, não há razão para lamentos.

Urnas de pensamentos que não irão encontrar matéria. Foi melhor assim, não há recado que não chegue no momento certo: o de uma mulher e sua hora.

Digo adeus aos vapores de vinho, conhaque, licor, absinto. Tudo o que não sorvi e nem sorverei nesta vida. Bebidas com rostos conhecidos, artistas disformes e seus tormentos.

“Sra. F*”, assim me chamam. No entanto, não é o nome que uso. Trago na assinatura, além de meu nome próprio, o sobrenome de minha mãe. Não por sua família, que pouco me importa. Trago por amor incondicional àquela que me gerou e ressuscita nas horas mais estranhas. Em meu sobrenome, chega também o de meu pai. Homem de ideias, sentimento não expresso. Atina para a vida como se não sobrasse segunda chance. Meus escritos são para ele herméticas odes. Fala sobre o que deixei de fazer com o peso da âncora. Mas não solta a minha mão ainda que eu dance em cima da mesa em uma de minhas insânias.

Há minha irmã, minha herdeira direta. Olho para ela e vejo um pardal, um golfinho ou algum filhotinho. Coração puro, ingênuo demais para este mundo! Mundo de crueldades, horrores e hospícios. O que será da vida sem deixá-la em um lugar seguro?

Muso, amor meu, lá se vão quase quinze anos. Se de você eu não falo a todo instante com exasperação, é apenas para não quebrar o nosso pacto sagrado: do que fica entre nós, como os segredos das Sirenes. Sentimento como aquele que nutre quem abandona a danação eterna, o poder, o brio, a lira de Milton, correntes ou pés pisoteando a cabeça dos outros. Não, isso nunca. Quero apenas olhar as nuvens, a chuva evaporando… Os vapores da noite em janela aberta. De que adianta olhar os olhos dos outros através das rótulas das janelas? Gosto de olhar os seus, que estão de portas abertas.

Já são horas e o galo novamente cantará. Antes disso acontecer, o canto da cigarra irá regressar.

Mas lembre-se de não esbanjar. Luzes apagadas, só assim você irá me encontrar.

21 fatos sobre mim antes do pôr-do-sol

Sinto o cheiro da cebola e do alho refogados na panela.

Gosto de cozinhar minhas próprias refeições. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que eu valorizava experimentar pratos novos e com preços mais salgados do que solução salina. Tudo pela satisfação de provar temperos e combinações diversas. Mas o tempo foi passando, os víveres da fase ‘casa dos pais’ ficaram para trás, as obrigações dispararam e as escolhas começaram a surgir. Ou isso ou aquilo. 

Fora isso, passei por uma crise gástrica intensa em 2017 e 2018. E percebi que não tinha mais 20 anos ~ tinha uns 10 a mais (hoje tenho 12 a mais. Time flies). Desde então, retomei a vontade e a motivação para cozinhar e não parei mais. Vários episódios depois, faço refeições e marmitas para os cinco dias da semana (o que costuma me fazer economizar um tempo danado!). Aprendi a fazer bastante coisa na cozinha e me dar bem com receitas diferentes. Tenho o hábito de comer em silêncio, não misturar líquido com as refeições (eu tento!) e sentir o sabor de cada alimento, sem misturebas (eu também me esforço muito, já que adoro comer ‘mix’ de caldos e sólidos – rs).

Nos finais de semana – e uma vez durante a semana de trabalho – tiro um cochilo depois do almoço. A famigerada siesta (sesta), que meu pai valoriza imensamente. Para mim, é o melhor horário para descansar. Há um detalhe: nessas ocasiões, gosto de dormir no sofá. rs. Estico os pés, aciono a ventilação, pego o meu travesseiro especial para o sofá, meu tapa-olho e até depois. Acordo muito bem depois desse pequeno ritual.

Quando não é possível, aproveito os minutos após o almoço para ler e anotar ideias, citações ou simplesmente viajar mentalmente. Como é o horário em que me sinto mais exausta, sempre procuro ingerir algo com cafeína. Em outros momentos – geralmente no outono e no inverno -, saio para dar uma caminhada. É tão maravilhoso o que essas duas estações tão especiais são capazes de proporcionar! O vento no rosto, as folhas cobrindo os raios de sol, uma certa névoa lembrando um ‘spleen‘… Cheguei a comentar com familiares que gostaria muito de sair como uma ave migratória, sempre indo para onde o outono e o inverno estão (vai que é possível!).

O período vespertino é sempre de trabalho. Somente às 17h, me autorizo a pular fora dos ossos do ofício e aguardar a chegada da noite… Sua fragrância, belezas, inquietações, saudades, palpitações…

Então ergo a cabeça e fito o céu. O pôr-do-sol está chegando. 

A quem possa interessar: antes do amanhecer.

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Fragmento retirado do Instagram @opoemaensinaacair

Fluxo de consciência # 45

É lugar-comum valorizar o que temos quando perdemos. Acho que essa lógica persiste desde sempre na essência da humanidade ou de seus ancestrais (por sinal, só em tempos recentes consegui ligar o tico e o teco e perceber que na História do mundo existiram hominídeos – que não são considerados humanos (pensei que todos seguissem uma linha de ancestralidade humana… Santa ignorância e antropocentrismo!) – que se relacionaram com seres de outra espécie, como a nossa. Enfim… Esse emaranhado todo começou quando descobri a existência dos Denisovas).

Tive uma crise de enxaqueca muito forte. Por muitos dias, ela se arrastou. Dessa vez, fármacos ‘moderados’ não foram suficientes. As receitas médicas apontaram para lados mais pesados – nenhuma novidade -, o que prontamente ignorei. Você chega no consultório e dizeu só vim telefonar”. Ou está passeando pelo lado de fora da Casa Verde. Para as vozes de autoridade, isso já é suficiente. (rs). Tou fora.

O fato é que, no auge da dor incapacitante, comecei a perceber a maravilha que é deitar a cabeça no travesseiro e poder dormir, sentindo a maciez dos lençóis e cobertores. A paz que o coração ganha ao ouvir o canto dos pássaros. A luz do sol que entra sorrateira pela janela, sacudindo a cortina. O gosto sensacional da água gelada ou da bolsa térmica cheia de pedras de gelo deslizando pela testa. O sabor da comida – sentir cada pedaço, cada mordida, seja ela qual for. Ler um livro bom sem qualquer pretensão. Assistir a filmes, séries, novelas, o que for. Observar o movimento da rua. Esbarrar em máximas de Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino e erguer as sobrancelhas, enquanto o pensamento diz: “Eu sei o que vocês fizeram nos primeiros séculos do cristianismo passado, hein? Tentem se emendar” e rir desse comentário como se fosse uma grande piada. 

Escrever os cartões de natal das pessoas queridas, enviando algo que você produziu, tirou da própria mente. Olhar a luz que nunca se apaga e sentir conforto. Observar o que a vida humana se tornou nas ruas e sentir as lágrimas despencando na face. Lavar o rosto na pia do banheiro e entender como Rimbaud escreveuBarco Ébrio‘. Entre outras tantas coisas. 

A última crise quase levou a minha sanidade embora, mas me deu algo MUITO precioso. Algo que eu julguei que tinha perdido na adolescência, mas que voltou com força total para a minha vida.

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O segredo dos segredos enterrado a sete chaves, volta sobre volta, dentro de mim. Tão simples e tão difícil de alcançar.