Fluxo de consciência # 42

done
I’m done!

Ando vivenciando uma constatação antiga, mas que só agora tive a ‘disposição de espírito’ (vamos chamar assim – rs) suficiente para encarar: eu levo as coisas & as pessoas muito a sério. 

Desde criança, tenho essa fixação por operacionalidade, razão e objetividade, o que causou certo rebuliço nas minhas “possessões emocionais” de coração na mão bem ao estilo shelleyniano – contraste e desequilíbrio evidente. 

Sei que parece papo de sabedoria antyga, mas é pura verdade – tão pura quanto as águas do Lago das Cinco Flores ~ se eu bebesse álcool, diria que é tão pura quanto uma caneca de hidromel tradicional: as vontades mudam. Aliás, o próprio tempo muda.

Fico perplexa quando me deparo com a pessoa que sou hoje e com a pessoa que eu era há cinco anos atrás, por exemplo. Cinco anos é um período relativamente pequeno diante da engrenagem do mundo.

Nesse meio tempo, descobri que levo tudo muito a sério. Sou conhecida no meio íntimo como “circunflexa e navy seal”. Pelos deuses do Egito, navy seal??!! Raciocinando atentamente, vi que estava pegando pesado com o mundo e, especialmente, comigo mesma.

Um dos motivos pelo qual estou tão apaixonada pela música Pariah, de um dos homens mais inteligentes e criativos da face da Terra depois dos anos 1960, é justamente a sua conexão com o meu momento. O trecho em que Steven fala sobre o seu cansaço, sua saúde fraca, sua fraqueza mental, e que poderia ficar muito bem com a solidão, sem dramas, mas que saber que sentimentos assim poderiam afligir a pessoa que ele ama – oh, sim, isso seria o inferno. 

É isso. 

Sendo 100% honesta como bebida destilada, o meu jeito sisudão e marcial escondeu, durante muito tempo, a minha necessidade de dar o melhor de mim. Apesar de acreditar que não existe via de mão única (principalmente se tratando de relacionamentos), eu já joguei flores no abismo e as vi cair fundo sem ter qualquer esperança de que o vento as soprasse de volta para mim.

De certa forma, em aspectos importantes da existência, continuarei fazendo isso. Há tarefas que precisam ser levadas muito a sério e acredito que você deve amar a sua missão para que tudo ocorra de uma forma menos asfixiante. Vou continuar seguindo o que acredito.

Mas não tenho a menor paciência para mesquinharias. Não tenho mais tutano nos ossos para intrigas palacianas, conspirações para roubos de coroa, reações às ações de Brutus (até tu?), pessoas que se comportam como noivas em fuga, Calígulas, Neros, Bernardos Guis, Rainhas de Copas, Luís XIVs e para ser árbitra de briguinhas entre Byrons e Keatsx (a propósito, um adendo: Keats, eu continuo escrevendo o meu nome na água, obrigada!)… Chega de Harry Hallers de araque! Para mim, todo esse universo já deu. Faço minhas as últimas palavras de Slash a Axl Rose no tempo em que a banda tinha a pegada que me fez colecionar a discografia:I’m done“.

Não sou de xingar, mas vou abrir uma exceção aqui e agora (perdoem, é a catarse): Cansei, porra!

A vida é um sopro, como dizia o cara que viveu 104 anos, e eu não quero gastar o tempo que me resta de fusível levando “reis nus” a sério.

Back off, can of worms!

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Fluxo de consciência # 40

De volta à rotina! Na verdade, não sei exatamente quando ela nos deixa de vez. Talvez a sete palmos do chão – ou nem isso. Comecei a produzir de novo, com o mesmo ritmo desde que escolhi o jornalismo como profissão. Ou seja: ainda no curso de Direito. rs.

Algumas resenhas prontas. Ensaios finalizados. Textos que preciso terminar de revisar. Meu ambiente de trabalho ganhou reforço em termos de maquinário e mobiliário, o que me deixa sem qualquer motivo externo para reclamar (shit! – rs.).

Tenho lido com certa regularidade (melhor do que em 2015/2016 e pior do que em todos os anos anteriores) e sigo com a tendência analítica, o que me causa alegrias e dissabores – tudo tem dois lados.

Não há mais espaço para a quantidade de chocolates que procuro (adeus cafeína e serotonina fáceis!) e estou exatamente como na música Rising of the tide (destaque para a segunda estrofe). Um amigo envia de forma constante mensagens sobre musculação e os perigos do leite de vaca (o atual vilão de tudo, ao lado do açúcar). Ouço meu amigo, para esses assuntos, ele é a voz da experiência (junto com mamãe, que entende MUITO sobre micro e macro nutrientes… O_O”). Se rolar um curso ou pós-graduação em segurança alimentar, já sei para quem indicar.

Gosto de discutir as possibilidades de Dark com meu ❤ e minha amiga Maria Valéria. É incrível! Há sempre novas teorias. A última que lancei – vou deixar registrada aqui antes que algum aventureiro apareça: Adam não é Jonas, e sim Bartosz. Só um palpite.

Escrevi um poema – que foi criado para ser uma música – para o meu amigão. Sinto falta dele todos os dias! Fico me perguntando o que ele acharia desse mundo baldio de hoje… Com certeza, gostaria tanto do Spotify quanto eu. E do Netflix também. Talvez curtisse os tablets para desenho, as mesas especiais, Castlevania (ele iria se amarrar!) e outras coisas boas por aí. Mas não teve tempo pra isso! Enfim… Não dá para falar desse assunto. Não mais. Não diretamente. 

O que mais tem alimentado a minha partícula de vida especial – além da leitura – é estar sendo capaz de executar o meu projeto, peça por peça, sozinha, todos os dias. 

Minha vontade de “cronicar” está baixa. É sazonal – assim espero.

Fluxo de consciência # 39

Nós últimos dias, tenho notado uma crescente falta de paciência para filmes do tipo “chuchu ao molho de chuchu”. Devo dizer que adoro chuchu (só para deixar claro), mas nem todo dia e nem toda hora. Assim tem sido com algumas circunstâncias da minha vida. 

Gosto muito de assistir a filmes, seja em casa ao lado de — .. -. …. .- / -.-. — — .–. .- -. …. .. .- / .–. .-. . -.-. .. — … .- –..– / — . ..- / .- — — .-. ❤ ou em uma roda caseira de cinema na companhia de pessoas silentes ~ abrindo aspas para a minha querida mãe, que gosta de comentar os passos dos protagonistas, sofrer suas dores e celebrar suas alegrias em voz alta ~, ou no cinema.  Assim como faço listas anuais de livros lidos, repito a operação com filmes (para o meu exclusivo desfrute). 

No entanto, por alguma razão racionalmente desconhecida por mim, minha estafa com determinados longas tem ficado evidente logo nas cenas iniciais. Por exemplo: comecei a assistir “Tudo para ficar com ele(2002), mas demorei muito para atravessar a cena do encontro na boate. Uma amigona indicou, dizendo enfaticamente que “é leve, engraçado”. Mesmo assim, o osso de galinha ficou atravessado na garganta.

Quase acontece o mesmo em “A senhora da van(2016), e olha que estamos falando de Maggie Smith, a eterna Violet Crawley de Downton Abbey. A trama foi resgatada com a trivial cena da ‘limpeza do banheiro’ (feita pelo escritor e dramaturgo que abriga a vovó na garagem de casa). Aquela reação, que me arrancou risadas, conseguiu me levar em banho-maria até o final.

Filmes comoNão olhe” (2018) eClinical(2017) foram capazes de me causar alergia. Passei o tempo todo achando que estava sendo atacada por pernilongos, mas era só o tédio mesmo.

Tal  revestrés tem tomado conta do meu desejo cinematrográfico até mesmo para clássicos. Não vi nem mesmo os remakes clássicos da Disney – mesmo debaixo de uma chuva de pedidos da minha companhia preciosa. Talvez faça uma exceção para “Rei Leão”. Talvez. 

Ando preferindo acompanhar com os dedos na grade as séries pelas quais desenvolvi afeição. Terminei a segunda temporada deDarke já estou zumbizando de saudades. Não vejo a hora da outra fase de Kingdom.

Talvez seja só um período carrossel. Meu único receio é que o desinteresse comece a bater na minha porta. Cruzes!

jonas_dark
Everything is connected to everything else

 

Notícias do Feudo

Meu contoAmor de Hospício já está no ar no blog literário A Estranhamente (espaço que adoro, verdade seja dita). Foi uma experiência muito auspiciosa (gosto de filmes indianos!) escrevê-lo, tanto por tratar – ainda que de modo fluido – de temas como voz de autoridade, encarceramento involuntário, padronização do conceito de normalidade (partindo dos ensinamentos de Foucault e com as observações que o filósofo realizou emVigiar e Punir“), como por dar voz às ideias e leituras que faço sobre a existência de não-terráqueos. 

Aproveitei o final de semana para ler (ainda prossigo na leitura deBlue Nightse inicieiNoites Egípcias e Outros ContoseFeliz Ano Novo‘), assistir filmes e séries, ouvir o álbum ao vivo do Antimatter, comer sanduíche com queijo parmesão e bolo de laranja. Quero aproveitar o recesso para cuidar das minhas plantas e aprender mais sobre elas (tenho cactos, suculentas, algumas hortaliças, lavanda e lírio da paz), ouvir outras músicas – dentre elas, gravações de Tchaikovsky em vinil – e dar minha atenção ao que tem esperado por ela faz algum tempo.

Na tarde de hoje, depois de uma inesperada soneca – após me certificar de que o ventilador de teto não desabaria em minha cabeça -, sonhei com uma melodia e consegui transformá-la em um refrão pegajoso. Puxa, como gostei! Lembrei dos meus primeiros anos aprendendo teclado, depois violão e partindo para a guitarra.

Também já imaginei uma letra rápida e despretenciosa para essa música ~ se eu conseguir terminar. Vai ser uma baladinha deprê no estilo do debut do ‘Low’ (I Could Live in Hope). O tom é C e estou tentando fazer uma intro entre G, A, D (mas não quero soar idêntica a ‘Falling Again’, do Lacuna Coil, o que está sendo um problema – hahaha!).

Não sei se vai dar certo, mas vou tentar. Continuo escrevendo em códigos – até mesmo em meus diários e blocos de anotações (será que fui algum agente soviético em outra vida?) – e buscando formas de realizar um sonho antigo. Ao contrário das hipóteses que escutei ~ para a minha total estupefação ~, não se trata de obter iate, mansão em Beverly Hills ou nada parecido. Trata-se apenas de levar o meu coração para onde ele deve estar, no momento certo para criar a coisa certa. ❤ 

Uma pitada de sentimentalismo segundos antes das férias. Nada mal.

tenor
Em caso de incêndio, me mande um e-mail. Note: em caso de incêndio.

 

Louvor à irracionalidade

Sou uma pessoa racional na maior parte do tempo. Apesar do meu temperamento dado asturm und drang~ principalmente no que diz respeito à minha criatividade ~, tenho uma mente mais afeita a raciocínios, ponderações à la Nazaré Tedesco e contenção emocional. Apenas um adendo aqui antes que soe mentira: eu vou às lágrimas mais fácil do que vou ao delírio romântico. Talvez seja uma forma de catarse, não sei. Não consigo sequer ouvir a música deSempre ao seu ladosem chorar – por isso, virei motivo de piada interna entre meus familiares. Se lembro deTúmulo dos Vagalumes“, uma onda de tristeza se apodera de mim e eu começo a lacrimejar na velocidade de uma carpideira. Minha irmã brinca demais com minha “contenção emocional” para assuntos tão sérios e desmantelamentos para ‘mel com açúcar’. 

Todavia, hoje quero elencar algumas coisas que faço sem saber exatamente o motivo. Faço e não penso; faço porque faço, faço sem raciocinar por um segundo (o que, acreditem, não é o meu padrão):

  • AssistoBita e os animaispara relaxar, descansar, dormir. O musical me dá tanta paz de espírito que costumo ver essa sequência a cada 3 noites;
  • Como bombons de chocolate de forma quase inconsciente, mesmo sabendo das crises de enxaqueca que podem gerar (meus preferidos são ‘ao leite’);
  • Levanto da cama muito cedo até mesmo nos finais de semana porque gosto do cheiro e do frescor do amanhecer (sem nenhum motivo aparente);
  • Ouço sons se formando quando estou tomando banho (mesmo que esteja tudo desligado) e anoto a melodia para depois esquecê-la;
  • “Guardo” filmes para momentos posteriores, ou seja, mesmo querendo assistir demais a determinado filme, posso demorar propositalmente para vê-lo na ânsia de desfrutá-lo com paciência e calma (por conta desse hábito, já perdi o feeling para vários longas);
  • Faço cálculos mentais sem qualquer nexo e sem qualquer pretexto (calculo, por exemplo, datas de aniversários ou ‘passagens’, somando, subtraindo, dividindo, multiplicando, querendo achar ali algum significado);
  • Gasto algum tempo olhando as sombras dos objetos projetados nas paredes (principalmente se estiverem iluminados pela luz alaranjada dos postes nas ruas).

Essas são algumas das principais atividades que faço de forma inconsciente, quase ”irracional” (usando o termo aqui com certa licença poética). Por razão desconhecida, também tenho apego a essas práticas. 

Diante de tanto pragmatismo e pressão deste universo em chamas, talvez seja até melhor assim.

Um desabafo ao terapeuta

Alguém do meu passado já dizia: “Cabeça dos outros é terra de ninguém”. Quando escutei a frase pela primeira vez, achei espirituosa. Lembro de ter gargalhado alto, uma bobeira. 

Eu ouvi isso há muitos anos. Um desabafo surgido a partir de uma discussão. Eu, o receptáculo da conversa, apenas escutei e ri. Com o passar dos anos e o tráfego de pessoas na vida, acabei percebendo que esse ditado de boca à boca é de uma honestidade avassaladora.

Vejo um mal-entendido se formando ao redor do globo para cada 5 habitantes. Tudo isso porque achamos que sabemos o que o nosso interlocutor está falando e, não raro, misturamos na fala do outro a nossa própria compreensão. Eu não sou do tipo polemista, nunca fui. Para falar a verdade, mergulho na mesma ideia de Machado de Assis quando ele manifestava sentir “tédio à controvérsia”. Posso contar nos dedos de uma mão quantas vezes eu me meti em bafafás.

Duas delas foram de ordem política nas últimas eleições (fogo que logo se apagou porque eu cheguei no local do incêndio com um balde de água e lancei nas chamas), uma em um grupo de indicações de serviços no facebook (quando notei a real natureza da “personalidade do grupo”, vamos chamar assim, dei o fora) e a última com uma pessoa com quem costumava dividir livros e indicações no curso que faço.

É preciso dizer, a única controvérsia que me incomodou foi a última, por se tratar de um absurdo desmedido. Dei minha opinião sobre determinado texto. Um comentário alegre, efusivo, afinal, quantas indicações! Infelizmente, meu pensamento foi interpretado semioticamente pela pessoa como um esboço de voo de pavão. Quase ouvi um “está se achando, hein?” ser verbalizado pela boca de quem se sentiu ofendido.

Pode até não parecer, mas tenho tecido mole no coração. E certas atitudes ainda transpassam a Sibéria e adentram a caverna onde abrigo os meus sentimentos. “Se gente próxima pensa assim, imagine os que moram em outras fronteiras”, lamentei.

Mas não expus nada. Faço como sempre fiz até hoje: arrumo minhas malas e saio no silêncio das 3 horas da madrugada. Ao som do “Concerto em C Maior, RV 443: II. Largo”, de Vivaldi. Bem dramático na flauta doce e na penumbra.

Não há ninguém acima de ninguém nesta terra seca e devastada que chamamos de mundo. T.S Eliot já sabia disso. Ele e outros. Agora nós temos a chance de saber.

Apenas um desabafo na cadeira do terapeuta antes de sair e fechar a porta.

Rastro sem explicação

Você já se deu conta de que podem existir hábitos inexplicáveis, injustificáveis e insistentes próximos a você? Melhor dizendo: eles estão suficientemente próximos porque são seus, produzidos pela sua boca, corpo e mente. E sem que o apito do guarda ressoe, nada parece que pode ser feito. Eu tenho alguns:

  • Mascar chiclete só enquanto durar o aroma artificial na boca. Depois disso, adios;
  • Tomar bebidas quentes com uma colher de café dentro da xícara/caneca;
  • Levantar o óculos mesmo que ele esteja fixo, sem sinal de queda;
  • Cruzar os dedos das mãos;
  • Deitar para dormir ouvindo música;
  • Comer cereal com leite quente;
  • Não usar o mesmo talher para comidas diversas (não uso a mesma espátula para produtos diferentes).

Esses são alguns hábitos curiosos que não sei explicar de onde vieram e por qual razão ainda existem. É interessante como deixamos passar pequenas atitudes no fluxo do nosso rio e, quando finalmente reparamos, já se passaram anos a fio sem sequer nos atentarmos para o que fazemos, como fazemos e quando fazemos.

A consciência pregada pelos monásticos também é isso: estar sempre presente. Lembro de um koan que li sobre um monge que, achando-se preparado, entrou na sala do mestre e pediu para ser instrutor de outros monges. Ao que o mestre simplesmente perguntou: “De qual lado você deixou os chinelos ao entrar aqui?”. Sem saber a resposta, o monge saiu em silêncio e desistiu do seu pedido.

Uma das coisas que as sociedades precisam agora, neste exato momento, é saber o que fazem, porquê fazem, para que fazem e a quem beneficiam. Pode ser que esse seja o passo perdido, aquele rastro sem explicação que a humanidade deixou e já apagou – mas continua repetindo e repetindo, em rotação eterna. É hora de saber qual é a razão.